Unicopas participa de diálogo sobre desafios do cooperativismo solidário

homem camponês da agricultura familiar com chapéu de palha cuida de mudas dentro de uma estufa de produção de alimentos
Foto: Joyce Fonseca / MST

Debate ocorreu durante VIII Feira Acadêmica de Economia Solidária 

O dirigente da Unicopas e diretor-presidente da Unicafes Santa Catarina, Genes da Fonseca Rosa, participou de um bate-papo virtual durante a VIII Feira Acadêmica de Economia Solidária (Faesol). O evento acontece simultaneamente à Reunião Anual de Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura no Recôncavo da Bahia (RECONCITEC), organizada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A transmissão aconteceu pelo canal do Youtube da TV UFRB e foi conduzida pela professora doutoranda da Universidade, Ludmila Meira. 

Genes abordou o tema Desafios de Representar Nacionalmente Cooperados da Agricultura Familiar e iniciou o diálogo destacando o início da utilização da nomenclatura agricultura familiar no Brasil, além de passar um panorama do desenvolvimento do cooperativismo nas últimas décadas no contexto nacional.  

“Até 1980 não se falava em agricultura familiar.Essa diferença não era considerada. Os estudos de movimento sindical e as organizações do campo perceberam que os agricultores pequenos tinham dificuldades em permanecerem na agricultura”, destaca. 

Para ele, essa diferença está diretamente relacionada ao tamanho da propriedade dos agricultores e ao volume de produção. “A realidade de um agricultor com 10 hectares de terra e outro de 5 mil é muito grande. Essa diferença nas produções está relacionada ao poder aquisitivo, que é muito diferente. Naquela época os juros praticados para o custeio de uma lavoura eram os mesmos para os dois tipos de produtores. Foi neste contexto que surgiu a necessidade de fazer uma separação de acordo com o perfil”, avalia. 

Na década de 1980, o forte movimento sindical na região sul do Brasil e as organizações relacionadas à agricultura enxergaram na mobilização uma maneira de força. Uma das reivindicações desses grupos era a diferenciação nos juros de empréstimos para a agricultura. “Isso demorou para se concretizar, mas foi uma grande discussão coletiva. Conseguimos fazer com que fosse criada uma lei exclusiva para o pequeno agricultor. Após o ex-presidente FHC criar o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), deixamos de ser chamados de pequenos agricultores para agricultores familiares. Esse foi apenas o pontapé inicial”, destaca Genes. 

Para o dirigente, a agricultura familiar ganhou novo fôlego. Foram tempos de subsídios que garantiram oportunidade de compra de equipamentos mais adequados para a lida com a terra. “Neste contexto, a gente começou a discutir também a importância do cooperativismo. Queríamos um cooperativismo diferente do que já estava sendo praticado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), que é mais atenta às demandas das grandes cooperativas”. Este cenário impulsionou o surgimento da Unicafes, criada para o fortalecimento das cooperativas dedicadas à agricultura familiar, que são as responsáveis pela produção de 70% dos alimentos produzidos no país”.     

Junto com a necessidade de um fortalecimento coletivo surgiu a demanda do cooperativismo solidário, onde a colaboração e ajuda mútua garantem a amplificação de mercados e, como consequência, o aumento da comercialização. “ A Unicafes tem essa função de fazer negociações pelas cooperativas, além de apoiar às associadas no acesso às informações técnicas. Ela ainda dá suporte na reivindicação de políticas de apoio para a  articulação com os movimentos sociais e com governos municipais, estaduais e federal. Um grande exemplo disso está no marco legal do cooperativismo”. 

Para Genes, essa missão também está presente no dia-a-dia da Unicopas, que reúne, além da Unicafes Nacional, mais três grandes centrais do cooperativismo e da economia solidária do Brasil: a Unisol Brasil, a Concrab e a Unicatadores. Para ele, a união de diferentes atores potencializa a luta do cooperativismo solidário no país. “O  cooperativismo convida as pessoas a pensarem diferente, a trabalharem no coletivo. Essa socialização de conhecimento entre acadêmicos e agricultores é importante. Juntos contribuímos nos debates e a sociedade passa a entender a importância de uma vida com compartilhamento, tanto na produção quanto na comercialização”. 

Veja algumas perguntas feitas durante o debate: 

No caso da Unicopoas, como unificar bandeiras de segmentos tão diversos?

Cada central tem sua autonomia e direção. O que nós podemos fazer em conjunto? O que a agricultura familiar pode contribuir com a Unicatadores? Termos essa união e troca tanto na comercialização quanto nos projetos. Os projetos podem contemplar um ao outro. Se a gente analisar as centrais, podemos fazer essa troca. Os trabalhos não são diferentes e a função da Unicopas é fazer a interação entre centrais e cooperativas. 

Quais os maiores desafios enfrentados atualmente pelo cooperativismo solidário?

A  questão de políticas públicas. No governo Lula foi criada a lei da merenda escolar (PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar), em que ficou estabelecido que cada município adquira para a merenda escolar o mínimo de 30% de produtos da agricultura familiar. O governo que temos hoje praticamente tem tirado de nós essas políticas públicas. Essa é a grande dificuldade que nós temos. 

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Com relação à agricultura familiar, de que forma podemos potencializar a representatividade das pequenas cooperativas com viés econômico solidário?

Se o poder público e os municípios incentivassem mais as feiras municipais isso seria potencializado. Parece que os municípios não querem saber de feira de rua. As cooperativas pequenas têm essa possibilidade. Hoje, a mídia no geral, como TV e rádio, fala bem dos produtos da agricultura familiar. As pessoas que estão em bairros distantes vêem na TV alguma reportagem e perguntam: “onde encontro esse produto?”.  Não existe incentivo para obter pontos fixos de venda. Os consumidores de bairros mais afastados têm de se deslocar aos grandes mercados. Precisamos de ações dos governantes tanto para os produtores quanto para os consumidores.