{"id":38327,"date":"2026-05-05T09:42:00","date_gmt":"2026-05-05T12:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/?p=38327"},"modified":"2026-05-05T09:42:01","modified_gmt":"2026-05-05T12:42:01","slug":"mrosc-10-anos-que-transformaram-a-relacao-entre-estado-e-oscs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/mrosc-10-anos-que-transformaram-a-relacao-entre-estado-e-oscs\/","title":{"rendered":"MROSC: 10 anos que transformaram a rela\u00e7\u00e3o entre Estado e OSCs"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Lei 13.019\/2014 trouxe seguran\u00e7a jur\u00eddica, mas emendas parlamentares surgiram como risco para clientelismo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por La\u00eds de Figueir\u00eado Lopes*<\/p>\n\n\n\n<p>Ao completar&nbsp;dez&nbsp;anos&nbsp;de vig\u00eancia em 2026, a Lei 13.019\/2014 &#8211; conhecida como o Marco Regulat\u00f3rio das Organiza\u00e7\u00f5es da Sociedade Civil (MROSC) &#8211; pode ser lida como uma das mais relevantes inova\u00e7\u00f5es institucionais recentes na&nbsp;rela\u00e7\u00e3o&nbsp;entre&nbsp;o&nbsp;Estado&nbsp;brasileiro&nbsp;e&nbsp;a sociedade civil organizada. O&nbsp;MROSC&nbsp;substituiu a l\u00f3gica dos conv\u00eanios com a sociedade civil organizada por um regime pr\u00f3prio de parcerias, trouxe maior seguran\u00e7a jur\u00eddica, reduziu a discricionariedade administrativa&nbsp;e&nbsp;reconheceu a legitimidade das organiza\u00e7\u00f5es na execu\u00e7\u00e3o de atividades&nbsp;e&nbsp;projetos de relev\u00e2ncia p\u00fablica&nbsp;e&nbsp;de interesse social com recursos p\u00fablicos. O pa\u00eds passou a contar com uma lei nacional de contratualiza\u00e7\u00e3o p\u00fablica voltada exclusivamente \u00e0s entidades privadas sem fins lucrativos, independentemente de certifica\u00e7\u00e3o, reconhecendo suas especificidades&nbsp;e&nbsp;centralidade na constru\u00e7\u00e3o de direitos&nbsp;e&nbsp;implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ganhos s\u00e3o evidentes. Os novos instrumentos qualificaram a&nbsp;rela\u00e7\u00e3o&nbsp;entre&nbsp;Estado&nbsp;e&nbsp;sociedade civil. O&nbsp;MROSC&nbsp;tamb\u00e9m produziu um efeito pedag\u00f3gico importante: obrigou a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica a olhar para essas parcerias como pol\u00edtica p\u00fablica de fomento&nbsp;e&nbsp;de colabora\u00e7\u00e3o. As organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o parceiras leg\u00edtimas do&nbsp;Estado,&nbsp;e&nbsp;n\u00e3o apenas ve\u00edculo de exce\u00e7\u00e3o administrativa \u00e0 execu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, como se poderia interpretar antes.<\/p>\n\n\n\n<p>As peculiaridades das&nbsp;OSCs&nbsp;foram disciplinadas, deixando claro&nbsp;que&nbsp;a governan\u00e7a&nbsp;e&nbsp;as compras&nbsp;e&nbsp;contrata\u00e7\u00f5es s\u00e3o distintas dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, respeitando o comando constitucional decorrente do direito humano \u00e0 liberdade de associa\u00e7\u00e3o,&nbsp;que&nbsp;determina&nbsp;que&nbsp;n\u00e3o deve haver interfer\u00eancia estatal em seu funcionamento. Pode haver remunera\u00e7\u00e3o da equipe com encargos sociais inclusos&nbsp;e&nbsp;previs\u00e3o de despesas de diferentes naturezas, desde&nbsp;que&nbsp;necess\u00e1rias para a execu\u00e7\u00e3o do objeto. \u00c9 de responsabilidade exclusiva da OSC o gerenciamento administrativo&nbsp;e&nbsp;financeiro dos recursos envolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a hist\u00f3ria de sua implementa\u00e7\u00e3o sofreu um rev\u00e9s. A lei entrou em vigor em 2016. O decreto federal&nbsp;que&nbsp;regulamenta 8.726\/2016 foi publicado em 27 de abril daquele ano, poucas semanas antes do afastamento da ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica Dilma Rousseff,&nbsp;que&nbsp;deixou o Pal\u00e1cio do Planalto em 12 de maio de 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltou, no in\u00edcio da vig\u00eancia, uma indu\u00e7\u00e3o federativa ampla&nbsp;e&nbsp;consistente, capaz de orientar Uni\u00e3o, Estados, Distrito Federal, Munic\u00edpios&nbsp;e&nbsp;Organiza\u00e7\u00f5es, de formar quadros t\u00e9cnicos qualificados&nbsp;e&nbsp;de sustentar, na comunidade de int\u00e9rpretes, os seus ditames para evitar repetir o diagn\u00f3stico exaustivo de analogias indevidas com entes p\u00fablicos. Em muitos lugares, o&nbsp;MROSC&nbsp;foi implementado apenas formalmente: mudaram nomenclaturas, mas preservaram pr\u00e1ticas antigas. Os avan\u00e7os pensados para a racionaliza\u00e7\u00e3o administrativa das parcerias n\u00e3o est\u00e3o sendo completamente exercidos. O deslocamento do controle de meios para o de resultados como nova forma de controle esperada, por exemplo, ainda n\u00e3o se efetivou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio&nbsp;que&nbsp;as emendas parlamentares surgem como fator de risco. O chamamento p\u00fablico consolidou-se como regra geral, fortalecendo crit\u00e9rios objetivos de escolha&nbsp;e&nbsp;democratizando o acesso a recursos. A lei previu exce\u00e7\u00f5es claras&nbsp;e&nbsp;restritas na dispensa, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia social&nbsp;e&nbsp;situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia,&nbsp;e&nbsp;reconheceu a inexigibilidade na hip\u00f3tese de inviabilidade de competi\u00e7\u00e3o&nbsp;entre&nbsp;as&nbsp;OSCs. No entanto, positivou tamb\u00e9m a regra de&nbsp;que&nbsp;recursos oriundos de emendas parlamentares n\u00e3o estariam sujeitos a esse procedimento pr\u00e9vio de escolha como uma hip\u00f3tese de n\u00e3o incid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na aus\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o do&nbsp;Estado&nbsp;para construir editais desburocratizados, o resultado foi a abertura de uma janela de \u201ccapta\u00e7\u00e3o direta\u201d&nbsp;que&nbsp;passou a ser amplamente utilizada como via preferencial de acesso a recursos p\u00fablicos. Organiza\u00e7\u00f5es passaram a captar recursos diretamente junto aos parlamentares, deslocando o centro decis\u00f3rio do Executivo para o Legislativo. O clientelismo&nbsp;e&nbsp;o patrimonialismo&nbsp;que&nbsp;se buscava superar reapareceram sob novas formas.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema est\u00e1 na ordem do dia. Na ADPF 854, o ministro do STF Fl\u00e1vio Dino tem exercido o monitoramento do Plano de Trabalho elaborado pelos Poderes Executivo&nbsp;e&nbsp;Legislativo com a finalidade de promover o aprimoramento da transpar\u00eancia&nbsp;e&nbsp;da rastreabilidade das emendas. Determinou a proibi\u00e7\u00e3o de destina\u00e7\u00e3o&nbsp;e&nbsp;execu\u00e7\u00e3o de recursos oriundos de emendas em favor de entidades do terceiro setor&nbsp;que&nbsp;tenham, em seus quadros diretivos&nbsp;e&nbsp;administrativos, c\u00f4njuge, companheiro ou parente, em linha reta, colateral ou por afinidade, at\u00e9 o terceiro grau, de parlamentar respons\u00e1vel pela indica\u00e7\u00e3o da emenda ou de assessor parlamentar a ele vinculado.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;MROSC&nbsp;j\u00e1 trazia essa veda\u00e7\u00e3o no seu artigo 39, inciso III,&nbsp;que&nbsp;n\u00e3o \u00e9 dispensada no caso de emendas parlamentares. Mas o ministro foi al\u00e9m&nbsp;e&nbsp;incluiu na lista o assessor parlamentar vinculado. Proibiu ainda a contrata\u00e7\u00e3o, subcontrata\u00e7\u00e3o ou intermedia\u00e7\u00e3o de pessoas f\u00edsicas ou jur\u00eddicas das quais participem, como s\u00f3cios ou dirigentes, prestadores de servi\u00e7o ou fornecedores de bens&nbsp;que&nbsp;se enquadrem na condi\u00e7\u00e3o descrita na veda\u00e7\u00e3o, na qualidade de benefici\u00e1rio final do recurso p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>As Assembleias Legislativas&nbsp;e&nbsp;as C\u00e2maras Municipais, al\u00e9m do Congresso Nacional, tamb\u00e9m passaram a fazer mais repasses diretos. Entes federados ficam diante de dilema recorrente: recursos \u201ccarimbados\u201d esvaziam os controles pr\u00e9vios do regime jur\u00eddico constru\u00eddo? N\u00e3o deveriam. O Executivo tem o dever de instrumentalizar os processos administrativos de parcerias checando habilita\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, exigindo plano de trabalho, monitorando a execu\u00e7\u00e3o&nbsp;e&nbsp;avaliando a presta\u00e7\u00e3o de contas, ainda&nbsp;quen\u00e3o tenha interferido no processo de escolha dos parceiros. Os mecanismos do&nbsp;MROSC, se bem implementados, s\u00e3o fortes o suficiente para enfrentar essa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecer esse problema n\u00e3o significa negar os avan\u00e7os do&nbsp;MROSC, nem defender a extin\u00e7\u00e3o pura&nbsp;e&nbsp;simples das emendas parlamentares,&nbsp;que&nbsp;\u00e9 um tema bem mais amplo do&nbsp;que&nbsp;se pretende tratar aqui. Implica, antes, enfrentar uma distor\u00e7\u00e3o estrutural. A Lei 13.019\/2014 n\u00e3o criou as emendas, tampouco poderia suprimi-las; apenas as acomodou. Mas essa acomoda\u00e7\u00e3o tem um custo: retira for\u00e7a do sistema de parcerias, enfraquece suas regras centrais&nbsp;e&nbsp;compromete sua voca\u00e7\u00e3o republicana.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio dos pr\u00f3ximos&nbsp;dez&nbsp;anos&nbsp;est\u00e1 em sair dessa armadilha. Isso passa, necessariamente, por fortalecer o papel do Executivo na organiza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas. \u00c9 quem est\u00e1 na gest\u00e3o p\u00fablica&nbsp;que&nbsp;poder\u00e1 diferenciar com mais clareza quando faz sentido a contrata\u00e7\u00e3o direta face a regra do chamamento p\u00fablico como obrigat\u00f3rio. Assim como ocorre na legisla\u00e7\u00e3o de licita\u00e7\u00f5es, h\u00e1 pol\u00edticas estruturadas no campo social&nbsp;que&nbsp;comportam possibilidades de dispensa, al\u00e9m da inexigibilidade, baseadas em crit\u00e9rios objetivos, credenciamento pr\u00e9vio&nbsp;e&nbsp;regras claras de acesso. Esse caminho pode evitar tanto a competi\u00e7\u00e3o artificial quanto a captura pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Investir em governan\u00e7a institucional&nbsp;e&nbsp;espa\u00e7os colegiados, como os conselhos de fomento&nbsp;e&nbsp;colabora\u00e7\u00e3o previstos na lei, ajudam a implementar o&nbsp;MROSC&nbsp;de forma mais fiel ao seu esp\u00edrito. Esses espa\u00e7os funcionam como inst\u00e2ncias permanentes de escuta, avalia\u00e7\u00e3o&nbsp;e&nbsp;corre\u00e7\u00e3o de rumos, permitindo ajustes cont\u00ednuos&nbsp;entre&nbsp;Estado&nbsp;e&nbsp;sociedade civil. O Conselho Nacional de Fomento&nbsp;e&nbsp;Colabora\u00e7\u00e3o (Confoco), previsto na pr\u00f3pria lei, tem desempenhado papel relevante nesse processo, validando ferramentas de implementa\u00e7\u00e3o do&nbsp;MROSC&nbsp;e&nbsp;oferecendo contribui\u00e7\u00f5es importantes para seu aperfei\u00e7oamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez&nbsp;anos&nbsp;depois, o&nbsp;MROSC&nbsp;continua sendo uma conquista. Mas sua vitalidade futura depender\u00e1 da capacidade de enfrentar os ru\u00eddos&nbsp;que&nbsp;se instalaram. Recolocar o Poder Executivo no centro da organiza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, com participa\u00e7\u00e3o social, al\u00e9m de ofertar forma\u00e7\u00e3o permanente&nbsp;e&nbsp;p\u00fablica, por escolas de governo&nbsp;e&nbsp;parceiros, dar conhecimento sobre os achados de auditoria, transpar\u00eancia \u00e0s exce\u00e7\u00f5es&nbsp;e&nbsp;fortalecer mecanismos de governan\u00e7a institucional s\u00e3o passos indispens\u00e1veis para&nbsp;que&nbsp;o&nbsp;MROSC&nbsp;tenha for\u00e7a jur\u00eddica para cumprir seu papel.<\/p>\n\n\n\n<p>* <strong>La\u00eds de Figueir\u00eado Lopes <\/strong>\u00e9 S\u00f3cia de Szazi, Bechara, Storto, Reicher e Figueir\u00eado Lopes Advogados. Doutoranda em Direito P\u00fablico pela Universidade de Coimbra e Mestre em Direito pela PUC-SP.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Lei 13.019\/2014 trouxe seguran\u00e7a jur\u00eddica, mas emendas parlamentares surgiram como risco para clientelismo Por La\u00eds de Figueir\u00eado Lopes* Ao completar&nbsp;dez&nbsp;anos&nbsp;de vig\u00eancia em 2026, a Lei <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/mrosc-10-anos-que-transformaram-a-relacao-entre-estado-e-oscs\/\" title=\"MROSC: 10 anos que transformaram a rela\u00e7\u00e3o entre Estado e OSCs\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":5,"featured_media":38328,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-38327","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38327","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38327"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":38329,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38327\/revisions\/38329"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/38328"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}