{"id":22484,"date":"2019-04-16T15:56:21","date_gmt":"2019-04-16T18:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/unicopas.org.br\/?p=22484"},"modified":"2021-06-20T19:32:01","modified_gmt":"2021-06-20T22:32:01","slug":"conflitos-no-campo-quase-um-milhao-de-pessoas-afetadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/conflitos-no-campo-quase-um-milhao-de-pessoas-afetadas\/","title":{"rendered":"Conflitos no campo: quase um milh\u00e3o de pessoas afetadas"},"content":{"rendered":"<p>Aproximadamente um milh\u00e3o de pessoas estiveram envolvidas em conflitos no campo no Brasil no ano passado. Mais especificamente, 960.630 contra 708.520, em 2017, um aumento expressivo de 35,6%. Os dados s\u00e3o do Caderno Conflitos no Campo Brasil 2018, divulgado pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), no \u00faltimo dia 12 de abril, em Bras\u00edlia. Nos conflitos especificamente por terra, foram mais de 118 mil fam\u00edlias envolvidas em 2018. Comparado com o ano anterior, o aumento foi de 11%, quando foram registrados 106.180 casos.<\/p>\n<p>O estudo revelou um aumento exponencial na expuls\u00e3o de fam\u00edlias do campo no ano passado, em especial no Centro-Oeste quando 574 fam\u00edlias foram expulsas de seus territ\u00f3rios, 550 somente no estado do Mato Grosso e 24 no estado do Mato Grosso do Sul, \u00e1reas de grande expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio e de grandes empreendimentos. Comparado com 2017, o aumento foi de 14.350%, quando foram registradas 4 expuls\u00f5es. \u201cO Cerrado \u00e9 o segundo Bioma que mais sofre com os conflitos do campo, ficando atr\u00e1s somente da Amaz\u00f4nia que \u00e9, hoje, o mais impactado\u201d, destacou Isolete Wichinieski, da Coordena\u00e7\u00e3o Executiva Nacional da CPT durante o lan\u00e7amento. As regi\u00f5es com o maior \u00edndice de expuls\u00f5es em 2018 foram as regi\u00f5es Norte (837 fam\u00edlias, com um aumento de 36,3%) seguida da Sudeste (820 fam\u00edlias expulsas, com um aumento de 35,6%).<\/p>\n<p>Ao todo, no Brasil, somente em 2018, o poder privado foi respons\u00e1vel pela expuls\u00e3o de 2.307 fam\u00edlias \u2013 um aumento de 59% em rela\u00e7\u00e3o a 2017 &#8211; e o poder p\u00fabico por despejar 11.253.<\/p>\n<h3><strong>Conflitos pela \u00e1gua \u00e9 o maior desde 2002 e 85% das v\u00edtimas s\u00e3o de comunidades tradicionais<\/strong><\/h3>\n<p>O relat\u00f3rio da CPT ainda mostra que 2018 \u00e9 o ano com o maior n\u00famero de conflitos pela \u00e1gua desde 2002. No ano passado, foram registrados 276 conflitos pela \u00e1gua, envolvendo 73.693 fam\u00edlias. O n\u00famero de conflitos \u00e9 40% maior e o de fam\u00edlias envolvidas, 108%.<\/p>\n<p>Entre as v\u00edtimas, 85% s\u00e3o de comunidades tradicionais. Dos 276 casos, 235 (85,14%) atingiram camponeses de Fundo e Fecho de Pasto, Geraizeiros, Ind\u00edgenas, Marisqueiras, Pescadores, Quebradeiras de Coco, Quilombolas, Ribeirinhos e Vazanteiros.<\/p>\n<p>As mineradoras foram as respons\u00e1veis por 50,36% dos conflitos, somando 139 ocorr\u00eancias, sendo 111 protagonizados por mineradoras internacionais e 28 por nacionais.<\/p>\n<h3><strong>Mulheres: um recorte de luta <\/strong><\/h3>\n<p>De 2009 a 2018, 1.409 mulheres sofreram algum tipo de viol\u00eancia. Somente no ano passado, foram registrados 482 casos de viol\u00eancia em conflitos do campo contra mulheres, a maioria, s\u00e3o sem-terra.<\/p>\n<p>&#8220;Pode-se dizer, com certeza, que \u00e9 sobre as mulheres que recai a carga mais pesada, pois elas, ao verem destru\u00eddo o local de habita\u00e7\u00e3o e trabalho, carregam consigo a dor e a ang\u00fastia das crian\u00e7as que est\u00e3o sob sua responsabilidade&#8221;, diz o relat\u00f3rio.<\/p>\n<blockquote><p>Para Isolete, o retrocesso de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para as mulheres pode agravar ainda mais este quadro. \u201cA mulher se coloca na frente das lutas em defesa da vida e de seus territ\u00f3rios\u201d, observou.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 2018, 36 mulheres foram amea\u00e7adas de morte, 6 sofreram tentativas de assassinato, 15 foram presas, 2 torturadas, 6 sofreram ferimentos, 2 morreram em consequ\u00eancia de conflitos, 1 sofreu aborto e 400 foram detidas em uma a\u00e7\u00e3o em que denunciavam a privatiza\u00e7\u00e3o das \u00e1guas de Minas Gerais. Elas ocuparam a Nestl\u00e9, em S\u00e3o Louren\u00e7o, e a pol\u00edcia as manteve detidas por horas dentro dos \u00f4nibus que as conduziram e todas passaram por revista.<\/p>\n<h3><strong>Conflitos trabalhistas aumentaram 30%<\/strong><\/h3>\n<p>Em 2017 foram registrados 66 casos de trabalho escravo. Em 2018, 86. Isso corresponde a um aumento de 30% no n\u00famero de casos.<\/p>\n<p>Outras situa\u00e7\u00f5es igualmente graves mostram diferentes formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho no campo, como casos de trabalhadores intoxicados por agrot\u00f3xicos. De 2000 a 2018, a CPT registrou 363 v\u00edtimas em conflitos envolvendo agrot\u00f3xicos, pessoas que morreram ou tiveram a vida amea\u00e7ada devido ao contato com venenos. Estes casos, especificamente, est\u00e3o distribu\u00eddos da seguinte forma: 71% em conflitos pela terra (256 v\u00edtimas); 21% em conflitos trabalhistas (77 v\u00edtimas); 8% em conflitos pela \u00e1gua (30 v\u00edtimas). Do total, 91 v\u00edtimas s\u00e3o crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio ressalta que os n\u00fameros registrados pela pastoral s\u00e3o pequenos diante da realidade. A maior parte das pessoas que buscam por m\u00e9dicos por causa de intoxica\u00e7\u00e3o s\u00e3o diagnosticadas com outros problemas de sa\u00fade, deixando, assim, de relacionar a doen\u00e7a com o contato com agrot\u00f3xicos. Al\u00e9m disso, grande parte dos trabalhadores n\u00e3o denuncia o fato, pois temem puni\u00e7\u00e3o. \u201cO ganha-p\u00e3o est\u00e1 em jogo. O medo de perder o emprego faz dos trabalhadores o grupo mais silencioso. S\u00e3o ref\u00e9ns do sil\u00eancio\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Assassinatos caem, mas 2019 j\u00e1 se mostra com um aparente aumento <\/strong><\/h3>\n<p>No ano passado houve uma queda substancial no n\u00famero de assassinatos. Caiu de 71, em 2017, quando houveram 5 massacres, para 28 em 2018. De acordo com an\u00e1lise da CPT, anos eleitorais tendem a ter uma diminui\u00e7\u00e3o nesse tipo de viol\u00eancia. Contudo, 2019, j\u00e1 aponta o retorno do aumento de assassinatos. Isso porque nos quatro primeiros meses deste ano, a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra j\u00e1 registrou 10 assassinatos em conflitos no campo. O total registrado at\u00e9 o momento j\u00e1 representa 36% das mortes ocorridas em 2018. \u201c\u00c9 importante destacar que registramos os casos que chegam at\u00e9 a CPT. Muitos n\u00e3o chegam at\u00e9 n\u00f3s. Ou seja, se formos estimar todos os conflitos que acontecem Brasil afora, os n\u00fameros podem ser bem maiores\u201d, observou Ant\u00f4nio Canuto, assessor da pastoral.<\/p>\n<h3><strong>N\u00fameros que mostram crescimento em rela\u00e7\u00e3o a 2017 <\/strong><\/h3>\n<p>40% em conflitos por \u00e1gua<\/p>\n<p>59% em fam\u00edlias expulsas<\/p>\n<p>35% no n\u00famero de pessoas envolvidas<\/p>\n<p>30% em conflitos trabalhistas<\/p>\n<p>10% em conflitos envolvendo a minera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>11% no n\u00famero de fam\u00edlias envolvidas em conflitos por terra<\/p>\n<p>4% no n\u00famero de conflitos no campo<\/p>\n<p>6,5% em terras em disputa<\/p>\n<h3><strong>Cooperativismo e Economia Solid\u00e1ria: estrat\u00e9gias para enfrentar a viol\u00eancia<\/strong><\/h3>\n<p>Para Arildo Lopes, presidente da Unicopas (Uni\u00e3o Nacional das Organiza\u00e7\u00f5es Cooperativistas Solid\u00e1rias) o levantamento realizado pela CPT ainda mostra uma realidade desafiadora. Segundo ele, um dos caminhos para que isso seja minimizado \u00e9 o fortalecimento das cooperativas de agricultura familiar, uma vez que elas<\/p>\n<blockquote><p>\u201clutam pelo direito \u00e0 terra por meio da reforma agr\u00e1ria e produzem grande parte da comida que vai para a mesa dos brasileiros. Ou seja, est\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 soberania alimentar do pa\u00eds\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>J\u00e1 Francisco Dal Chiavon, vice-presidente da Unicopas, lembra que, no Brasil, esse estado de viol\u00eancia acontece desde o descobrimento e posterior coloniza\u00e7\u00e3o. \u201cO saqueio das riquezas continua em nosso pa\u00eds. Se antes era feita por pessoas f\u00edsicas, hoje \u00e9 realizada por empresas privadas, em especial, por meio de madeireiras e mineradoras. Al\u00e9m de violento, esse modelo desenvolvido pelo agroneg\u00f3cio destr\u00f3i o meio ambiente \u2013 solo, florestas, \u00e1guas e pessoas &#8211; e desde a nossa coloniza\u00e7\u00e3o o povo sempre fez parte da m\u00e3o-de-obra e n\u00e3o como benefici\u00e1rio\u201d, destacou ele dizendo ainda que esse processo sempre teve o Estado como facilitador da explora\u00e7\u00e3o promovida por pessoas que nunca se sentiram parte da sociedade brasileira. \u201cEles v\u00eam com uma cultura de quem vem de fora e por isso n\u00e3o se interessam com o real desenvolvimento do Brasil, buscam somente nossas riquezas sem se preocuparem com as consequ\u00eancias dessa explora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia conta a mulher tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o. \u201cElas, historicamente, sempre foram violentadas, mas, nos \u00faltimos anos vemos a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica delas. Se formos analisar, todas as mulheres assassinadas eram lideran\u00e7as. Com a nossa nova forma de organiza\u00e7\u00e3o social, com maior participa\u00e7\u00e3o das mulheres em espa\u00e7os p\u00fablicos e pol\u00edticos, elas come\u00e7am a ser visadas de uma forma diferente: a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica dessas mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Uma das estrat\u00e9gias para o enfrentamento desta realidade, para Francisco, s\u00e3o as formas associativas e cooperativas de trabalho e atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAl\u00e9m de cumprir uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica, o cooperativismo solid\u00e1rio, por meio da sua organicidade, contribui para o enfrentamento desse estado de viol\u00eancia. Isso porque n\u00e3o \u00e9 mais um indiv\u00edduo sozinho lutando, mas sim v\u00e1rios indiv\u00edduos juntos com a mesma luta e o mesmo objetivo. Ou seja, as pessoas n\u00e3o representam a si pr\u00f3prias, mas representam uma organiza\u00e7\u00e3o que tem mais for\u00e7a pol\u00edtica e representatividade\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p><em>por Thays Puzzi \/ assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o Unicopas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Os dados s\u00e3o do Caderno Conflitos do Campo Brasil 2018 da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra e revelam um aumento de mais de 35% no n\u00famero de pessoas envolvidas em compara\u00e7\u00e3o com 2017<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":5,"featured_media":22485,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"templates\/template-fullwidth-narrow.php","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[57,65,67,70,75,109],"class_list":["post-22484","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-conflitos-no-campo","tag-cooperativismo","tag-cooperativismo-solidario","tag-cpt","tag-economia-solidaria","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22484"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22484\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35132,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22484\/revisions\/35132"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22485"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/unicopas.org.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}